Por Diego Sousa
Acredito que, diante dos grandes problemas que assolam nossa sociedade, os governantes que possuem verdadeira boa vontade política — aqueles poucos que não estão amarrados por alianças espúrias — deveriam ter a humildade de adotar uma postura rara na política: pedir ajuda. Essa atitude, que já ouvi da boca de um político, foi exemplificada pelo ex-governador Ciro Gomes em um episódio marcante de sua gestão.
Em 1993, Fortaleza enfrentava o terceiro ano consecutivo de seca severa e estava a apenas 90 dias de um colapso total no abastecimento de água. A cidade, com mais de 1 milhão de habitantes, corria o risco real de secar completamente, o que seria uma catástrofe humanitária sem precedentes. Foi nesse contexto que Ciro decidiu construir o Canal do Trabalhador.
O que chama atenção não é apenas a obra em si, mas a forma como ela foi viabilizada. O então governador reuniu o Ministério Público, o Tribunal de Contas, a Igreja Católica — representada pelo arcebispo Dom Aloísio Lorscheider — e as principais lideranças políticas e empresariais. Apresentou dados técnicos, mostrou que o tempo estava acabando e, com humildade, pediu apoio para enfrentar a crise. Essa união de forças evitou uma tragédia e deveria servir de referência para os governantes de hoje.
Infelizmente, o cenário atual é bem diferente. No dia 10 de fevereiro de 2026, soube da debandada de vários comerciantes sobralenses do ramo de água mineral, que estão sendo ameaçados por organizações criminosas. A crise da segurança pública no Nordeste exige medidas firmes, respaldadas em dados técnicos e, sobretudo, em unidade política e social. No entanto, o que se vê são ações paliativas, sem coordenação e sem a força necessária para proteger a população amedrontada.
O governo estadual poderia ter iniciado um combate mais incisivo, com apoio do Exército via presidente Lula, ainda no último pleito — quando as organizações criminosas interferiram de forma massiva nas eleições. Ao não agir com firmeza, deixou que o problema avançasse até o estágio brutal em que nos encontramos.
Não faço aqui proselitismo em favor de Ciro Gomes, que pode vir a ser adversário político do governador Elmano de Freitas. O que apresento é um exemplo histórico de como a união da sociedade, quando guiada por liderança responsável e humilde, pode evitar tragédias. É exatamente essa postura que falta hoje: coragem para reconhecer a gravidade da situação e disposição para unir forças em defesa do bem comum.
Sobre o autor
Diego Sousa é assessor de comunicação, escritor, produtor audiovisual, designer e crítico político. Graduado em Sociologia, tem grande interesse na área da Educação, com ênfase nas Ciências Sociais.
